Rogério Costa Pereira @ 00:35

Qui, 29/07/10

Este mundo que me atenta e que faço por não perceber é feito de filhos-da-mãe e filhos-da-puta. O que os distingue é o grau de imputabilidade: os filhos-da-mãe são inimputáveis, já os filhos-da-puta, por mais razão que tenham, ai dos peidos que dão. Como é consabido (os comentários dos meus recentes fãs-cogumelos assim mo garantem), vivo nas berças e, por consequência, tenho um rebanho que pastoreio diariamente – assim faz toda a gente que não vive em Lisboa, anda atrás de ovelhas, cabras e bichos-da-seda, ajudado pelo cão do folclore ordinário. Temos uma A23 ou uma A25, uma A-qualquer, enfim, com que as vacas gordas nos presentearam, após arrasarem as servidões que nos permitiam sair da pasmaceira e ir ver as ondas pela primeira vez – oh céus!, que esta água é salgada. Pediram palmas, sentem-se mesmo no direito de as exigir, os tios de natal das meias brancas com raquetes. E lisboa, feita Portugal, grita: paguem cães!, quando vierem à civilização comprar caramelos, suem euros – ou a moeda que vigorar – pelo caminhos. Ou voltem aos atalhos de cabras das putas que vos foram parindo (e a nós – a eles – incomodando).

(pausa)

Dos filhos-da-mãe. Distingue-os o artigo do Código Penal que diz: “os filhos-da-mãe, ainda que se portem como filhos-da-puta, não serão esquecidos”. Este é o número um, de cominação à laia de ameaça de ajuste de contas. A estatuição real chega logo a seguir. Número Dois: “quem não for filho-da-mãe é filho-da-puta”. E aqui entramos na cena do consuetudinário alfacinha, que toda a gente sabe que o nascido além-sete-colinas tem grande probabilidade de ter mãe meretriz.

(pausa)

Como indicia suavemente o título deste post, este dito devia versar sobre a falta de espinha (coluna vertebral). Devia falar de gente que manda recados, que não tem ervilhas (não se exige mais) para dizer “raio que te parta!, baza!” ao que lhes tropeça as bandejas riscadas de quem os serve. Prometi-me falar da multidão com compromissos que extravasam os pretos-brancos do estar” ‘tá-se bem, desde que não me faças encalhar o mordomo”.

(pausa e outro assunto)

Li agora a carta que a minha Isabel – é minha, sim! (nós, provincianos, somos muito possessivos) – mandou a um fulanito a quem as estradas de portugal convenceram que sabe e que sabe com piada. Disseram-lhe que pode dizer sempre o que lhe vai na gana de forcado de bezerros de leite. Falo do gajo cujo curriculum rebentou por erguer um galhardete num imaginário primeiro degrau dum elevador. Nada de importante, pois. A minha amiga – feita parva – resolveu coçar uma comichão que não estava lá. Fez a vontade à melga que não pode (porque não tem como) morder. À Isabel já mandei um fenistil-placebo (é nívea, não lhe contem), que não vale a pena gastar a pele com tão fraca desculpa.

(pausa)

Bem sei que o meu parentesco não diz nada, que o meu aval beirão nada acrescenta e tem forma de desplante. Sei que não fui educado entre apelidos, que sou malcriado por ter a desfaçatez de relatar fidedignamente as bolas que batem na trave. Ouvi que tenho a ousadia de dizer dia quando é noite. Sei também que tenho garras e que o meu polegar não se opõe à turma dos quatro.

(pausa)

Ainda assim, insisto: está sol, é de dia e daqui a pouco levo o meu filho à praia. Entretanto, o fel destila, mas o meu filho vai à praia na mesma.



... partiu o espelho.