Rogério Costa Pereira @ 01:44

Sab, 03/04/10

Que Deus não existe, dizem. Parvoíce. Deus existe e eu conto-lhe uma história todas as noites — ando agora a ler-lhe o Pinóquio (antes foram os Maias para crianças — noto que ele estranha a mudança, vejo-o nos cocós, que andam menos consistentes). Há dois anos e meio, Deus escrevia-se com minúscula. Era o deus das guerras, o deus da barbárie, o deus redutor dos massacres em nome de, o deus das mortes nas gémeas. deus e o petróleo, a urina de deus. O diabo; deus era o diabo. O diabo dos homens e da puta que os pariu. Nunca me servi dele, com excepção de uma revolta intestinal sem casa de banho à vista. Nem ele de mim. Nasceu o Francisco e tudo mudou. deus cortou as barbas e passou a Deus. Era uma vez um puto. Este meu Deus tem um feitio tramado, porque aos 30 meses ainda se julga um deus. Eu sou o braço esquerdo, a mãe é o direito. Julga ele. Neste Deus, que está no sorriso e no choro, já assentei umas belas dumas palmadas. Já mandei Deus de castigo para o quarto. Este Deus usa fraldas, duas de pano para dormir e uma descartável para fazer as coisas que só Deus pode fazer por ele (vamos acabar com isso no Verão, introduzindo-lhe a tirania do pitó — e ele a nós a prepotência da cama molhada). Este Deus, ao contrário do outro, dá-me sorrisos. Diz-me "papá, não vás trabalhar" (traduzo para os incréus, ignaros na língua Dele). Eu explico-lhe as coisas e ele entende. Deus magnânimo assimila. O problema é a sopa e a negociação que a coisa envolve. Digo-lhe para comer só uma colher, ele diz não, eu proponho três e ele decide-se por dez. Done!, e damos cinco. Quando Deus está presente, sinto-me um negociador do FBI num livro de Kafka. Deus não quer, eu quero. Acabo por convencer Deus que é ao contrário, que ele quer e eu não. Raras vezes a coisa não resulta, ó tirania dos homens.

Neste momento, passa da meia-noite, Deus está a dormir. Antes de dormir, disse-me, como faz todas as noites: àputo-puto (amo-te muito, na língua de Deus). E depois pregou-me um susto: “Bu!”.

Se o diabo está nos detalhes, Deus está ali ao lado, a dormir. Aquela tábua onde me agarro, onde ele se agarra, onde a minha mulher se agarra. Tudo o que nos une aos três. Isso é Deus. O outro, o do paga agora e livra-te do fogo dos infernos, nunca se mostrou e não o concebo. Não lastimo a minha falta de fé, porque a tenho. Fé no amanhã. No próximo passo do meu filho, o pontapé na bola, o dizer puta em vez de porta (que embaraços já me causou). Que mais se pode querer de Deus, para além da vontade de correr para casa para o ver? O meu pequeno grande Deus. Quinze quilos de matéria divina (com a fralda limpa pesa menos).



... partiu o espelho.