Rogério Costa Pereira @ 01:54

Sab, 13/03/10

O velho fez-me lembrar a minha avó. A minha avó, aos 90 anos, insiste em contar-nos as suas paixões de infância, os seus segredos mais escondidos — coisas outrora irreveláveis, ainda que tal revelação se aplacasse com mais avé-marias num dia do que aquelas que ela poderia rezar num ano. As misturas de tempos, de pessoas, dos salões grandes e arrumados das memórias antigas com as arrecadações amontoadas das lembranças mais recentes, como diz o Chico. Mas o que mais me veio à lembrança (o pensamento vai saltando de galho em galho sem pancada nos cornos que o impeça) foi o enterro da minha avó, há meia-dúzia de tempos. Cova aberta, no único metro quadrado de terreno que as suas posses lhe permitiram deixar aos vivos (que curiosas seriam as partilhas). Descido o caixão, e quando já se terminava a função, noto um saco azul, volumoso, esquecido ali ao lado. Que eram os ossos do meu avô; que ali tinham estado todos aqueles anos — o meu avô. Na cova. Ainda eu não tinha acabado de perguntar que lhe fariam e já o saco azul era atirado para cima do caixão acabado de arrecadar, como se de um saco de ossos se tratasse. E era um saco de ossos, não sentiu nada. E terra por cima de tudo, à pazada, que ninguém foi lá atirá-la à mão. Nem um torrão que fosse. Ali ficarão — tudo ao molho —, até que os cemitérios entrem em desuso ou lá caiba um centro comercial. Os ossos da minha avó, quando o tempo desfizer o caixão, e os ossos do meu avô, separados por um saco azul. Faz tempo — não o conto em anos — e continua a doer, porra.



... partiu o espelho.