Rogério Costa Pereira @ 04:08

Dom, 10/02/13

Fui ler a historinha ao meu filho. Reparei, pelo canto do olho, que ele não estava a olhar para o livro. Por hábito, e porque o notei desatento às letras e às imagens, parei e olhei para ele. Estava a olhar para mim. Com aqueles olhos grandes por onde lê e se dá a ler.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Olhei-o nos olhos, sorri-lhe e li-lhe o resto da historinha.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Desvendou-me a essência em meia-dúzia de palavras. Há exactamente sessenta e quatro meses que a cara dele está nos meus olhos. Há exactamente sessenta e quatro meses que nos olhamos nos olhos. Faz hoje sessenta e quatro meses que a minha mulher e eu nascemos de novo.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Há coisas do arco-da-velha. Esta frase, longa-metragem das minhas sinopses diárias e redondas, saiu-lhe hoje.

Logo hoje que (ele não sabe) nos encontramos numa encruzilhada para onde não caminhámos mas para onde nos arrastaram.

O meu país já não se chama Portugal. Há exactamente sessenta e quatro meses. Disso já suspeitava, que um país é feito a cada dia por quem o faz e por quem o deixa fazer. E Portugal deixou-se ultrapassar pela direita. Pela direita. Mudou de ser, mudou de título. O nome do meu país é outro.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Faz hoje sessenta e quatro meses.

Não haverá bruxas, apesar de as haver, de as haver.

Já não há países sem Inc. a seguir ao nome.

Mas há filhos e há mães e há pais.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Mania esta que os adultos têm de complicar o que é simples. E toma e embrulha, Morpheus. "What is real?  How do you define real?  If you are talking about what you can feel, what you can smell, what you can taste and see, then real is simply electrical signals interpreted by your brain." [Morpheus, The Matrix]

Tenta antes isto.

"Papá, estou a ver a minha cara nos teus olhos"

Isto sim, é real.



... partiu o espelho.