Rogério Costa Pereira @ 23:06

Ter, 31/01/12

Durante os tempos da Guerra Fria era voz corrente dizer-se que a haver uma terceira guerra mundial a quarta seria à pedrada. Entretanto, o muro caiu e o ambiente bélico à escala mundial (que não regional, entenda-se) foi-se desanuviando.
Só na aparência, porém. Tristes os que se orientaram por tal sol enganador, enquanto a teia-mãe era tecida a régua e esquadro pelos de sempre com a ajuda dos cegos, surdos e mudos de serviço. Sem ponto de fuga e pegajosa como nenhuma outra. O bicho-homem, esse avesso ao sol, não iria permitir jamais que aquele de clarão, ainda que de luz-vesga, durasse muito. Fazia parte do plano traçado nas linhas do inevitável e inconsequente, aliás.
Neste momento estamos na iminência de ter duas guerras mundiais ao mesmo tempo. A terceira, que tem sido alimentada, ano após ano, pelos tais conflitos regionais, e que agora se arreganhou com o zénite do capitalismo selvagem, empurrado escada acima pelo neoliberalismo que a desagregação e pulverização das esquerdas permitiu; a terceira, dizia, já é nossa conterrânea e contemporânea, encara-nos e escarra-nos a cada respirar. Países como a Grécia e Portugal estão já ocupados pelo IV Reich, coisa eufemisticamente chamada de "tentativa de evitar a falência do euro". De resistência à seria nem se ouve falar, que o inimigo é por demais inteligente, mascarado de muitas caras e demasiadas vozes e com ainda mais kapos locais em cada posto territorial. Palavras aparentemente inofensivas, como défice, troika e governos cooperantes, lograram criar cercas de arame farpado invisíveis que nos impõem algo como "uma casa, um campo de concentração". Uma fabrica, uma escola, um hospital. Aí nos concentram. Aí nos arrancam os olhos e a língua, nos furam os tímpanos. Um país vendado e vedado pelos muros para cujo betão é obrigado a contribuir, sob a capa do "só assim melhores dias virão". Virão, sim, mas para os de sempre. Os eternos algozes da humanidade, que pé-ante-pé foram entrando, cercando e fazendo morrer em vez de matar às escâncaras.
Falava na coincidência de duas guerras, com adversários e aliados cruzados e entrelaçados, de forma a que, de bibe-sem-cor vestido, aniquilam os prós e os a favor, cegos pela ira e pela estupidez da ganância dos sem-país. O quarto conflito mundial, prestes a entrar em cena e que não chegará a suceder ao terceiro, porque com ele partilha o tempo e o espaço, assumirá formas mais tradicionais. Terá direito ao seu morto arquiduque da praxe, desta vez em forma de Estreito de Ormuz de trancas na porta. Sem petróleo, os ditos civilizados erguer-se-ão em fúria e correrão a salvar-se de tamanha privação. Que toda a gente sabe que só essa urina negra do diabo mantém o mundo a rodar. Espécie de calhau movido a combustível fóssil.
O resto da história não a conheço, mas o final adivinha-se. Adivinhar-se-ia, não fosse esta uma mera ficção sem qualquer parecença com a realidade.
Durmamos pois descansados, virados para o lado onde este sonho mau não nos atente. Sempre de olhos bem fechados.



... partiu o espelho.