Rogério Costa Pereira @ 01:22

Dom, 25/09/11

Voltei lá hoje. Pela primeira vez, desde que vocês se foram. Vi-vos nos mesmos sítios onde vos encontrei nos últimos dez anos. Não senti a vossa falta, que a vossa sempiterna presença não deixou. Estou agora em paz. A morte libertou-vos das maleitas da vida, mas a vida que eram – que são − não se deixou levar pela morte. Enquanto o corpo definhava, aos meus sentidos egoístas que não vos queriam deixar ir, não conseguia ver-vos com clareza. Vocês não me viam com clareza. A morte garantiu-nos a vossa vida eterna. Sem dor. A insuportável dor que sentiam não vos deixava viver, não me deixava recordar-vos. A morte foi o santo, senha e contra-senha da vossa imortalidade. Ainda assim, e paradoxalmente, gostava ter tido a oportunidade de vos beijar uma última vez. Hoje. Mais uma vez. De me despedir de quem já não me reconhecia, sempre pensando se seria a última. São estes os paradoxos da existência, caldeirada de egoísmos e altruísmos. Não há dia em que não faça meus os vossos passos, e estou agora à beira de dar mais um. Para me honrar. Para vos honrar. E ao vosso bisneto. E à minha mulher, com quem me casei há oito anos, mas que vocês nunca conheceram. Embora a vissem amiúde. Enquanto escrevo estas palavras, virado para a Estrela, sinto que não o faço sozinho. Não sei se vos cheguei a falar dos meus Deuses. De como não acredito no deus-pronto-a-vestir que a sociedade nos serve. De como acredito noutro tipo de Deuses. De como vocês lá se incluem. Em vez de um deus-ficção, encontrei-Vos. E a Ela. E a Ele. E ao meu Pai e aos Pais dele, meus Avós. E à minha Mãe. E à minha querida Irmã. E a todos os que me são. Aos meus. Deuses bem reais, que toco, que me tocam a cada instante. Que me ajudam a decidir em cada encruzilhada. Hoje, quando regressei à vossa casa, que afinal não era vossa, que se reduzia à casa de espera dum fim de vida, senti-me em paz. A morte − e demorei quarenta anos a aprender isto ­ – é a nascente da eterna presença. Quando não é precoce, como a vossa não foi (tendo em conta os males que vos atentavam e os anos que já tinham passado desde a primeira luz), a morte é como que um renascer para a vida. MadrinhaPadrinho. Escrevemos estas palavras a seis mãos, pelo que sois co-responsáveis pelo que esta vossa herege criatura diz. No teu desapego do corpo, minha avó, teve o meu pai o bom senso de me censurar as palavras que garantiam não acreditar estares num sítio melhor. Como me é hoje evidente, estás agora lá. Num lugar sem dor. Sem contar com os trambolhões que ele insiste em dar, e que o fazem chorar, continuais a viver no nosso filho­ – vosso bisneto, minha luz − que a estas horas dorme o sono de quem tem um enorme dever. O de vos continuar. A ambos vos vi sorrir quando lhe deram colo, tinha ele 4 ou 5 dias de luz (e mais tarde, de novo, sempre que lhe pegavam). Despertados do que vos atentava, perguntaram-me se era meu. Disse-vos que sim, embora já antevisse que mais do que meu, aquela imensa luz que dele irradiava, era o garante da vossa Imortalidade.

Amo-vos! 



... partiu o espelho.