Rogério Costa Pereira @ 15:15

Sab, 16/04/11

Mourinho e Sócrates. Um e outro são filhos de Maquiavel. Mestres da táctica. Os passos de Passos são meras reacções determinadas pelas acções (ou omissões) de Sócrates. Cada jogada de Passos Coelho, mesmo antes de este a lançar, não passa de uma reacção, em tabuleiro de xadrez, a uma predeterminação imposta por Sócrates. O feiticeiro e o aprendiz.

A diferença entre Mourinho e Sócrates é ligeira, mas o lugar que cada um ocupa faz toda a diferença. Hoje, por exemplo, Mourinho, em vésperas de um Madrid-Barça, resolveu não falar, decidiu postar-se, de forma provocatória, ao lado do seu adjunto em quem delegou o soltar de língua. A imprensa espanhola abandonou a conferência de imprensa – tal como Mourinho anteviu −, perante a mudez de Mourinho. Este, sublinhe-se, não se reduziu a não comparecer. Esteve lá, sim, mas calado o tempo todo.

Mutatis mutandis, Sócrates joga assim todos os dias. A diferença, do tamanho dum país – país? -, é que Mourinho faz o que faz pelo clube que a cada tempo representa. Sócrates, por seu lado, aplica Maquiavel em benefício exclusivo do seu umbigo cada vez mais cheio de cotão.

Entretanto, já submissos por línguas chulipas, doridas dos pouca-terras que os atravessam, os assessores daqui e dali divertem-se a revelar emails a ordenar disciplina partidária; masturbam-se, uns e outros – uns aos outros −, a dizer, desdizer e a interpretar cagadelas de mosquito.

O FMI, de chave-mestra empunhada, pasma de como é possível ser tão estúpido. Estes gajos querem chupar 80 mil milhões a quem fez por eles, mas, em vez de estenderem a mão, jogam à sardinha. A propósito da Finlândia: no lugar deles não nos dava um tostão. Estamos na “CEE” há coisa de vinte e cinco anos. Não aprendemos a ponta de um corno; continuamos a comprar jipes disfarçados de tractores – tal como o nosso mudo PR, o tal da magistratura activa (será que a excelência ainda pertence ao mundo dos vivos?), em mau tempo nos ensinou.

Continuem, rapazes, continuem rapazes; insistam no pintelho, persistam na campanha da vírgula mal posta. Haveis de ter um lindo enterro. Rico, concedo, mas “um-lindo-enterro”.

No entretanto, eu e os meus faremos por nós; aqui ou na Finlândia, em Moçambique ou na China, não mexerei uma palha por esta coisa, farsa de país, retrato fiel de quem o comanda desde 85 (omito o século).

Portugal sou eu; sou eu e aqueles que fazem como eu, os que se enganaram, os que se deixaram enganar, os que não se enganaram, que não se deixam enganar. Os que acreditaram e os que não acreditaram. Há uma meia-dúzia de patetas, que andaram por aqui a dar litro, mas que não o farão mais.

Nas próximas eleições votarei óbvio, votarei em branco, ciente de que, lamentavelmente e por defeito do sistema, tal invisível ponto-de-ordem de pouco vale (de que nem a cartão amarelo chega), mas convicto de que qualquer xis seria uma cruz. Já a carreguei uma vez, duas vezes. Acabou.

Enquanto eu e os meus existirmos, Portugal não morre. Quanto a vocês, assessores, pios, crentes, não-crentes, ferozmente-esperançados, convencidos, desgraçados à procura de, putas e filhos da puta, governem-se (lamento haver muita gente boa no meio disto, gente que se sujeita porque que tem de fazer pela vida ou até porque ainda acredita).

Comigo não contam mais; quero o meu filho longe deste lodaçal, ainda que por cá continuemos a viver.

A frase do Otelo chocou-vos? A mim não. Vai um gajo fazer um vinte cinco de Abril para isto? Para isto? Claro que não foi ele que o fez sozinho, claro que abomino a personagem, mas claro que lhe percebo o desencanto. Além de ser claro que em boa-hora se fez a revolução e de que tristes são os tempos em que um “capitão” de Abril diz tal coisa.

Um post scriptum integrado: o que Pacheco Pereira fez ontem, ao desvelar o sms, atirando merda à ventoinha à volta da qual uns e outros agora se banqueteiam, tem um nome. pacheco-pereira, com hífen e tudo, de minúsculas obrigatórias, elevado a substantivo. Daqui a uns anos terá honras de dicionário ou de lugar-comum. O significado adivinha-se: andará por antónimo de fidelidade, sinónimo de ressabiamento. Se me chamassem agora tal coisa, a resposta seria um murro nas trombas. É que ainda não me arrancaram a espinha. Em tempo: ó Abreu, quem quer respeito tem de se dar ao respeito; agora que vais ser representante do povo tens de aprender a fazer aquilo que não sabes; evita coisas destas e dá-te ao respeito, ó representante de todos eles (amanhã, mostro isto ao meu pai e lá se vai um voto; basta explicar-lhe o que é o "colectivo abrantes" e as guerras a que tu te dás).

Fui.



... partiu o espelho.