Rogério Costa Pereira @ 12:00

Sab, 04/12/10

Faz hoje 30 anos que Sá Carneiro foi assassinado. Faz hoje 30 anos que toda a gente sabe que Sá Carneiro foi assassinado. Faz hoje 30 anos que alguns saberão quem assassinou Sá Carneiro. Completam-se hoje 30 anos de silêncio. De compadrio e de calares. De Portugal no seu pior (no seu habitual). As comissões de inquérito e as respectivas conclusões dissonantes são a imagem cuspida do país que temos (num país a sério, de gente séria, bastaria uma). Bem sei que não vale a pena conjecturar sobre o que seria Portugal com Sá Carneiro, mas não deixa de ser interessante imaginar o que seria o país sem os atalhos da vida que se lhe seguiram. Os PM que se sucederam não teriam acontecido com Sá Carneiro vivo. Com os dois mandatos certos como PR, não deixa de ser curioso imaginar quem não teria sido o que acabou por ser. E quando. O exercício contrário (de quem não foi) é também assaz curioso. Nenhum desses eleitos (e desses não-eleitos e não-concorrentes) fez mais que percorrer o seu próprio caminho, sem responsabilidades no descaminho histórico original. Portugal estaria mal como está? Talvez, embora eu não esteja nada convencido disso. É certo que a verdade alternativa é sempre mais abastada do que a realidade. Mais fácil. Nada disso interessa, agora. O que releva é que Francisco Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, Snu Abecassis, Manuela Amaro da Costa, António Patrício Gouveia, Jorge Albuquerque e Alfredo de Sousa foram assassinados há 30 anos. 30 anos de um barulho excessivamente silencioso e ensurdecedor, de tão mudo que é. A (não) investigação do assassínio de Sá Carneiro é como que a autópsia deste país que apodrece. E que nos apodrece.



... partiu o espelho.