Rogério Costa Pereira @ 01:42

Sab, 13/11/10

Neste dia especial vou dizer(-te) de ti.

Do quão diferente seria o mundo – e não só o meu – sem a tua caldeação sanguínea, o teu rigor irracional (da razão como em a cruz do homem), sem o teu sentido de justiça, a tua fúria de viver com e para os outros. Seria um mundo menos mundo, um mundo com pouca pegada – menos mundo, mais imundo.

Mas há uma parte de ti que me assusta de morte – vou falar um pouco desse fajuto acabamento, neste dia em que se celebra a vida. É que, como toda a gente sabe, à primeira luz dão-nos carga para cem anos. Pelos usos e abusos, poucos a aproveitam até ao fim – mesmo porque nem tal é saudável. É como que um jogo movido a pilhas. Se jogares muito, a carga dura menos; se jogares pouco ou nada, a carga dura os tais cem anos (e a vida tem piada nenhuma, porque não serves o propósito – algo como comprar pilhas e emoldurá-las). Heróis há, como o Adriano – acho que já te falei dele –, que engendraram modo de enganar o deus das pilhas. Recarregam-se, os gajos; vão a cem para além dos cem. Eu, tu, ele, nós, vós, eles – a malta, sabes?! – não aprenderam o truque. Nascemos sem tal dom. E gastam-se. A bateria vai diminuindo mais depressa do que os anos para que vinha carregada. Alguns, a cem, chegam a morrer pela idade do cristo. Têm essa insalubre moda-mania, desinteirados de que a cem – sem o tal truque dos predestinados – não se chega aos cem.

Lembras-te do Auden? Agora imagina o mundo todo – todo o mundo – sem o ladrar dos cães, sem o som do piano, sem norte, sem sul (ou com ambos avessados). Imagina o mundo, minha gaja, sem a linha do horizonte até onde nadas e nos levas contigo. Imagina um mar vertical que chove trovões no focinho do mundo que sobeja. Um i-mundo. Imagina um mundo onde todos temos cem amigos íntimos e os amamos a todos muito muito muito. E se fazem muitas festas e “recepções”. Um mundo de gravata cinzenta onde os autocarros só fazem a carreira um. Porque vão todos ao mesmo, fazer a mesma coisa, à mesma hora. Imagina um mundo insubstancial, cheio de sombras de vidas informes. Um mundo onde não se fode, um mundo de genéricos-humanos, onde a luz do sol não se distingue do brilho da luz que nos faz uivar à lua.

Imagina, querida, um mundo faz-de-conta. Cheio de tachas arreganhadas, sorrisos resplandecentes. E aquela gravata cinzenta sempre lá. A enfeitar a máscara do viver.

Falei da morte. Nada a ver connosco. Nada a ver contigo. Falo da vida agora, do primeiro dia do resto nas nossas vidas. És a prova de que Machado de Assis se enganou ao escrever: “Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."

Nenhuma das tuas novas edições é uma errata da anterior – é antes uma nova edição aumentada e afortunadamente não-revista, editada por ti para nós. E a última, a dos cem anos, não vai aos vermes. Vai antes resfolgar no panteão orgásmico e gritante dos que da lei da morte se libertam, dos que dão e deixam de mamar ao mundo (leite, sémen, sangue, seiva, suor, saliva, lágrimas, ranho) e o mantêm digno. Daqui a cem anos, não precisarás de te armar de mitológico olho-palado e de braço solitário para, por entre as ondas, salvar a tua memória. Seria algo tão inverosímil como eu não amar o meu filho ou a minha mulher. És como um acidente nuclear em bom; deixas, por centos de anos, rasto – pegada! – de vida nas vidas por onde passas, por onde explodes, por onde erras e acertas. Como que um fiel da balança universal. Assim és, como o parafuso essencial ao rio que corre.

Daqui a cem anos. Aqui!

PS - Afinal, sempre consegui escrever sobre ti.



... partiu o espelho.