Rogério Costa Pereira @ 00:21

Sab, 25/09/10

ZL

Não tenho uma linha para dizer. Trinta e oito anos de palavras aprendidas e ensinadas e não tenho uma linha para dizer. A linha que não tenho para dizer não tem olhos, nem ouvidos. Não cheira. Não tem língua. A do estertor da morte e a do sexo gritado. Não tem. Tenho dois moinhos, como os que estão de costas para o Tejo. Presos ao chão por âncoras de sentires. A enfrentar a cidade. Amanhã volto à Estrela e levo os moinhos comigo, lamento-vos (por vós). Rodarão entre neves, os moinhos que vos arranco. Um menino e uma menina. Têm sexo, os moinhos que nos seguem para a vida. Hoje vou de jam session à desgarrada. De cá, teclo branco em preto; imagino de lá a mão na cinta. Mas hoje mando eu.

(não são agora os moinhos de que falei) Eram pequenos, o bernardo e o artur. Vamos regressar dez anos ao futuro e vê-los morrer, em mantas carpideiras. Como quem vê um filme e o botão ffwd se prende. Toma-os no colo e vê como são queridos. Cachorros. Agora vê-os morrer, grisalhos de dor. Velhos que têm de morrer, diz a voz dos homens. Flauta que a ciência da morte usurpa e sopra.

Dina? abre a porta! Desceste, subiste-nos, e mostraste-me o tempo. O cabrão que não pára quieto. O estupor. Chegamos tarde e não nos desculpa. Da altura do fole inglês que tem enfiado no cu (com dever à severidade do chá às cinco). Envelheceu-me os arrabaldes da vida e quer matar-me os cães. Por mais que eu lhe explique que têm só dois anos. O deus dos relógios não se convence. Diz que mais mal é o meu, que perdi dez anos ou o raio que o parta. Não insisto. Parece que é severo, o tique-taque do relógio. Está na lei. Que é proibido contestá-lo. Não sustento, mas resisto na memória. Faço de conta que me agacho, mas, pelas costas, passo o tempo ao meu querer. São cachorros!, vai-te foder ó natureza.

Volto aos moinhos, que têm nomes que aqui não digo. São cada vez mais parte de mim. Perguntam-me há quanto os conheço. Digo que há cem anos de tempo dos homens. Desconsideram a resposta, como que vinda de um alucinado. Eu desadoro-a por outra razão, que cem anos são a plástica dos milénios que na realidade foram.

Como disse acima, não tenho uma linha para dizer. E uma linha não disse, que sou homem de palavra.



... partiu o espelho.