Rogério Costa Pereira @ 02:26

Sab, 11/09/10

Não dorme. De início porque não conseguia, depois porque deixou de querer. Vinte-e-quatro sobre vinte-e-quatro. Madrugador, é olhado com consolo e gozo pelos noctívagos que vão à cama; noctívago, é visto com desprezo pelos madrugadores. Está sempre lá, no carril que vem e no carril que vai. À beira dos quiosques, recebe os jornais e espera pelo dono. Desatacado o primeiro, compra-o – ao matutino a quem já sabe as notícias, ou não tivesse sido ele a inventá-las. De camisa engomada, bebe a bica da manhã; de camisa esgaravatada, bebe a bica dos que se querem manter acordados, sob o trovejar dos sons servidos em bandejas de prata untadas com linhas de pó-de-talco.

É o Dr. Joaquim e o quim. Faz amor e fode, que vinte e quatro horas dão para tudo. Tirou dez cursos e foi expulso de dez universidades. Doutorou-se éne vezes com louvor e foi afastado xis vezes com distinção. Janta ao almoço, come sopas-de-cavalo-cansado ao deitar. Já se divorciou seis vezes; casou-se vez nenhuma. Nasceu filhos e também os enterrou, que com a insónia veio-lhe a imortalidade. Plantou árvores e mil anos depois aqueceu-se à fogueira delas. Ri!, sabendo que no relógio seguinte vai chorar. Matou um homem uma vez, tentou matar-se várias vezes. Foi condenado pelo primeiro crime, confessou os outros sem lograr a adjudicação da pena. O tempo, esse, passa-lhe tão depressa que não pode distinguir as estações. Vai ao mar no inverno, faz pegadas na neve do verão. E as estações, educadas pela natureza que as vai parindo, adequam-se aos horários do quim|Dr.Joaquim.

Um dia “acordou” – viu-se! – morto. Não acreditou e apanhou a carreira do costume. A morte insistiu e ele matou-a. O mundo desequilibrou-se e morreu de tanta vida, que é o que acontece aos mundos a quem morre a morte. O sol apagou-se, e a lua com ele. Os mares fizeram baixas as altas montanhas.

O quim|Dr.Joaquim cagou de alto para tais maniqueísmos. Pôs-se a ver filmes; mil anos e tal deles. Fez chichi, pôs gravata e foi trabalhar. Numa repartição de finanças.

(dedicado ao Marco, meu leitor destas horas)



... partiu o espelho.